(Complementares – André L. Soares)

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COMPLEMENTARES
(André L. Soares)
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Muito de mim é o seu inverso,
outra parte é tudo que você detesta;
tenho um pouco, que lhe parece
e um restante que desconhece.
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Você odeia minha melhor metade,
mas venera justo onde não presto;
quando nego… me vem inteira
e quando imploro, chega-me aos restos.
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Quando sou sol, você se faz frestas
e se sou aresta, logo me esquece;
sendo eu angelical, você me profana,
mas se sou sacana, você entoa preces.
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Onde eu silencio, você é grito e gesto;
se sou ‘habeas corpus’, você quer arresto;
quando acordo alegre, sua alma fenece,
mas se esmoreço, logo dá festas.
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Por agora o difícil é a vida avessa,
na distância que, hoje, a gente atravessa,
em que você é sábado e domingo,
enquanto ainda sou segunda e terça.
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Porém, cedo ou tarde (não precisa pressa),
tiraremos a limpo, toda essa conversa;
somos corpos bons, em sanas cabeças,…
amar as diferenças ainda nos interessa.
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Leia também:
Gritos Verticais / O Poema de Cada Dia /Poética Herética /Raiz de Cem /Sons de Sonetos

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