.

.
.
CONTRA O PLÁGIO NA BLOGOSFERA
(André L. Soares – 21.02.2008 – Guarapari/ES)
.
Em virtude de meu envolvimento com a literatura amadora, em que constatei inúmeros plágios, de textos meus e de outros, acredito poder contribuir de forma positiva ao debate. A experiência tem mostrado que, em geral, quando o plágio é descoberto, assim que vão surgindo as provas, o plagiador vai também ‘sumindo’ da web, apagando perfis de Orkut, postagens e blogs onde se possa comprovar o crime.
.
No entanto, algumas vezes, não muitas, o plagiador é mais ousado: ‘bate o pé’ e tenta, de todo modo, afirma-se como autor. E isso não vale só para escritores desconhecidos. Acreditem, já houve quem tentou convencer que era autor de um poema que, na íntegra, era idêntico a um outro texto de ninguém menos que J. G. de Araújo Jorge, um dos maiores poetas brasileiros do século XX.
.
Tratava-se de um poema com, aproximadamente, vinte versos, contendo, ao todo, cerca de duzentas palavras. Ainda assim, o plagiador – uma mulher – insistia que desconhecia o texto original e que o fato de haver outro exatamente igual era mera coincidência. Porém, do ponto de vista lógico, isso é humanamente impossível.
.
Ao se escrever um texto muita coisa está em jogo. Isso porque o conhecimento humano se forma a partir de duas fontes básicas: a) a educação formal, advinda das instituições como escola e igreja, por exemplo – onde se aprende a escrever, contar e entender conceitos elementares inerentes às ciências e à filosofia; e, b) educação empírica, por meio da qual são absorvidas informações gerais, na informalidade cotidiana, sem que se perceba.
.
Daí que, para muitos, é possível lembrar o dia exato em que aprendeu que a fórmula da água é H2O (educação formal). No entanto, não creio que alguém se lembre quando aprendeu, por exemplo, o que é chão, o que é parede, ou o significado das palavras ‘não’ e ‘beleza’. Porque isso se aprende pela vivência.
.
É essa combinação de saber formal e saber empírico que torna impossível que duas pessoas escrevam o mesmo texto.
.
Ao longo da vida, duas pessoas até podem receber a mesma dose de educação formal. Mas cada uma absorverá de modo diferente. Por exemplo, uma se destacará em cálculos; outra, em história; e, mesmo que ambas sejam boas em português, uma sentirá mais facilidade para entender certos aspectos da gramática que a outra. Ou seja, sempre haverá diferenças no aprendizado.
.
No que tange ao saber empírico, as diferenças são ainda maiores. O saber empírico constrói as noções subjetivas. Assim, se duas pessoas que têm a mesma formação acadêmica lêem, por exemplo, ‘O Capital’ (Karl Marx), as interpretações da obra variarão de acordo com outras leituras que cada um tenha feito acerca de política, direito, filosofia, bem como em função do que disseram seus pais acerca do socialismo e guerra-fria; dos lugares visitados ao longo da vida, ou ainda, por força da religião, entre outros inúmeros fatores.
.
Desse modo distinto que cada pessoa tem de entender o mundo, surge a forma única de cada ser humano se expressar.
.
No caso da elaboração de textos, tudo isso tem importância e, ainda mais, o domínio que cada um tenha da linguagem culta, das gírias, da capacidade individual de estruturar metáforas e jogar com as palavras, do conhecimento sobre estruturas e estilos de redação.
.
Além isso, ainda há o fator motivador, comumente chamado de inspiração, que nasce, de um lado, por decorrência do conhecimento acumulado (educação formal somada à vivência pessoal) e, de outro, por força de eventos e sentimentos momentâneos imprevisíveis, tais como o amor e o ódio.
.
A título ilustrativo, vale lembrar o caso do cantor e poeta Renato Teixeira. Em entrevista ao Programa do Jô, ele afirmou que, quando estava compondo ‘Romaria’, uma de suas canções mais famosas, imortalizada na voz de Elis Regina, sentiu preguiça em determinado momento e decidiu acabar a canção de qualquer jeito. Daí o último verso, que diz: ‘seu olhar, seu olhar, seu olhar…’.
.
Então, para que alguém também pudesse compor aquela mesma canção do Renato Teixeira, seria preciso, no mínimo, ter a mesma vivência no meio rural brasileiro, com forte influência do catolicismo tradicional, conhecer a cultura das festas cristãs, possuir basicamente o mesmo conjunto vocabulário, e, ainda por cima, ao escrever o poema, exatamente na hora de compor o verso final, sentir a mesma preguiça que se abateu sobre esse autor, escolhendo também o ‘olhar’ como referência última referência metafórica, ao invés de outro verbo qualquer da primeira terminação (‘ar’).
.
Diante disso, será mesmo possível que duas pessoas já tenham escrito dois textos exatamente iguais? Eu não creio.
.
.
.
.
.
.
.
Também escrevi sobre plágio em:
Pó(ética) HeréticaRaiz de CemGritos VerticaisNatureza PoéticaO Poema de Cada Dia.
Anúncios