(Massacre dos Inocentes – Peter Paul Rubens)

.
.
.
SEM METÁFORAS
(André L. Soares)
.
A gente pode prosseguir blefando
– ou não –
que o mal será curado com falsa democracia;
que eleição e referendo são remédios eficazes;
que Deus é brasileiro e essa nação tem bom futuro
e que a moral religiosa aponta mesmo uma saída.
.
A gente pode continuar mentindo
– ou não –
que a corrupção se estancará pela via do Direito;
que bem distribuir renda se faz com negociação;
que não derramar sangue torna todos mais felizes
e que se faz revolução sem que haja algumas perdas.
.
A gente pode dizer, se equivocando
– ou não –
que o narcotráfico está sendo mesmo derrotado;
que as garras das máfias não se apossaram do Estado;
que somente a educação vence a injustiça social
e que é algo construtivo o que chamamos de mídia.
.
A gente pode persistir se iludindo
– ou não –
que se deve acatar a ‘banda podre’ da polícia;
que a morte não é cura exata para os crimes políticos;
que humanismo recupera estuprador e assassino
e que nossa covardia nos faz um povo especial.
.
A gente pode ir avante se enganando
– ou não –
que basta fechar os olhos ao que sofre o vizinho;
que o povo não pode assumir o controle de um país;
que se pode viver bem negando a guerra civil
e que ninguém quer ver cortado esse mal pela raiz.
.
A gente pode até deixar que as elites roubem tudo.
A gente pode ser passivo e até mentir que é cristão.
A gente pode até viver em um nível subumano.

. 
Mas até quando?
.
.
.

Anúncios