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O MENINO DE BEIRUTE
(André L. Soares – 10.08.06 – V. Velha/ES)

Embora tivesse escolhido a felicidade
a julgar pelos prédios em ruínas,
a felicidade não o escolheu.
Ainda assustado, guardou no bolso
– junto a um retrato dos pais –
três rubras gotas de ódio e saiu.
Queria sorrir para o mundo…
em resposta, as ruas sujas gargalhavam
um sarcasmo seco, de fuzil.
Em dia claro, choviam estilhaços.
Nos seus braços uma ferida sangrava
e ele em total torpor
(historicamente anestesiado…
coração nasce blindado,
onde não há amor?).

Entre a poeira cinza dos escombros
a infância resiste e ele se ilude
num jogo de bolas de gude, distante dos bombardeios.
A paz agora é uma moribunda sombra,
que se alimenta do prometido cessar-fogo.
(rápido rasgo de esperança
que se curva às tradições e aos interesses…
e haja paixões, para manter viva essa loucura).

De novo correndo entre os corpos
sonha o dia em que possa descansar,
sem temer – na esquina – um inimigo,
usar roupas limpas aos domingos,
falar de coisas lindas,… ver o luar…

Ele não vai hoje à escola…
(arremedo queimado de salas de aula)
porque seus professores
trocaram os livros pelas armas.
Hoje ele não vai à escola…
mas traz marcadas em sua pele
todas as mais duras lições.
Ele hoje não vai à escola…
dez anos de uma vida infeliz
e a promessa de vingança
como sagrada cicatriz.
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