(Foto: André L. Soares)
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SORTE
(André Luís Soares)
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Quarta-feira. Oito de junho de 2005. A chuva que há dias castigava Vila Velha, fora substituída por um sol esplendoroso. A cidade parecia ofertar a todos um enorme sorriso de bonança. Elizabeth, moradora do Centro, pulou da cama às oito horas em ponto, como em todos os dias. No chão, pisou primeiro o pé direito. Ouviu o telefone tocar. Pareceu-lhe a voz de Severina, a empregada, a atender. Não deu importância. Meditou um mantra e, como sempre, foi banhar-se, escovar os dentes e, depois, tomar o café. Metodicamente nesta seqüência.

À mesa, na copa, deparou-se com o papelzinho a atiçar-lhe a curiosidade: um quarto de página de caderno, escrita à mão, contendo a milhar 9080. Elizabeth não sabia de onde saíra aquilo. Perguntou à filha, que do quarto fez a negativa. Questionou o filho que, com voz de sono, informou não ter a menor idéia. Não pensou mais sobre a razão do número. Estranhou não ter pão. Somente o café e foi ai que deu falta de Severina, a empregada. Novamente perguntou à filha. Esta avisou que ela havia recebido uma ligação e pedira para ir à rua, resolver algo e logo voltaria. Bom… estava explicado. Sempre estressada, Elizabeth jogou o papel na bolsa e saiu, decidida a fazer algo inédito ao longo de seus 40 anos: jogaria no Bicho.

Já na rua, a caminho do trabalho, evitou passar sob duas escadas e desviou do gato preto. Bela e esguia, deslizava sobre os saltos altos pela calçada em seu apertadíssimo jeans de cintura baixa, deixando à mostra o belo umbigo. Vestia blusa folgada, revelando parte considerável do farto busto. Os cabelos curtos ressaltavam-lhe a beleza do pescoço e ombros. Mais que brilhante, resplandecia. Entusiasmada nem notava os rostos que se voltavam à sua passagem. A palma da mão coçava. Lembrou que seus pais diziam que era ‘sinal de dinheiro’. Pronto. Resolveu que iria à ‘banca’ na hora do almoço. Mulher independente, dois filhos bem criados, era proprietária de microempresa do ramo de informática, cuja saúde financeira não estava lá essas coisas. Tempos difíceis esses, em que grande parte dos jovens, motivada pela paixão por videogames e internet, tendia a procurar sempre o mesmo segmento profissional seu. ‘– Táxi’!.

Sentada ao táxi e já mexendo na bolsa, separando o dinheiro da corrida, deu de cara novamente com o papel. Refletiu. Nunca fora de jogar. Principalmente no Bicho. Metódica, tinha horror à ilegalidade. ‘E se fosse presa no momento da aposta?. Ah! Que se dane. Não é possível que isso lhe aconteceria logo na primeira vez’. O carro parou. O taxímetro media seis reais e setenta e cinco centavos. Deus sete reais e saiu sem dizer nada. ‘Opa!’. Arrependida, voltou-se, sorriu ao motorista que, com cara de tarado, já a olhava pelas costas, na altura dos quadris. ‘Bom trabalho pro senhor. Muito obrigada!’. Ele sorriu de volta como fazem os homens quando imaginam que a mulher está ‘dando bola’. Olhou-a de cima abaixo e arrancou. Foi então que Elizabeth percebeu o número de controle do táxi. 9080. Pronto. Era mesmo seu dia de sorte.

Trabalhou como nunca, como se quisesse empurrar as horas, e teve a impressão de alcançar êxito. Nem fez tudo que previra e o relógio já marcava doze horas. Em face do café mirrado, estava varada de fome. Foi primeiro almoçar. Não havia pressa. Tudo indicava que estava com sorte. No ‘self-service’, lembrou do belo rapaz do caixa, com suas sutis cantadas, as quais ela fazia questão de fingir não perceber. Onde já se viu, uma microempresária e um pé-rapado. Contudo, queria atrair o máximo de fluidos positivos para si. Então – imaginou – ‘que hoje fosse diferente’!

Durante o almoço pegou aquele ossinho de galinha igual a uma forquilha, virou-se para a moça ao lado, estendeu-lhe o osso sem cerimônia. Sorrindo do inusitado, a moça segurou numa das partes e puxou. O osso se partiu. Elizabeth ficou com a maior parte. Devolveu feliz o sorriso à colega e terminou a refeição. Na hora de pagar, adiantou-se ao belo moço e sorriu dizendo: ‘– Engraçado, venho aqui há meses e ainda não sei seu nome’. Ele não sorriu de volta e, grosseiro, retrucou: ‘– Que é isso tia? Está a perigo é?’. Não bastasse, uma adolescente cresce detrás do balcão onde, pelo refrigerante ainda na mão, deveria estar ‘dando uma geral’. Olhou ameaçadora para Elizabeth e, em seguida, para o rapaz que, sentindo o perigo, apressou-se em atender outro cliente. Elizabeth julgou ser sua esposa. ‘Como nunca a havia notado?’. ‘Ah! – pensou – Infeliz no amor, feliz no jogo’. E, papel na mão, correu para a banca de Bicho.

Não procurou muito e lá estava o velhinho sentando na pequena mesa. Aproximou-se, estendeu-lhe o papel. O senhor pegou e riscou o jogo, não sem antes percorrer o olhar lentamente por todo seu corpo. Ao atingir a altura do rosto, perguntou: ‘– Cercado pelos dez ou pelos doze?’. Nossa! E tem isso ainda? Ah moço… não sei. Faz aí pelos dez, porque doze tá perto do treze… pode dar azar ‘por tabela’. O apontador não sorriu. Fez cara de quem ouviu asneira mas cumpriu a ordem, perguntando novamente: ‘– A senhora vai jogar quanto?’. ‘– Droga – praguejou – Moço… joga aí três reais’. Nervosa, entregou o dinheiro. Pegou o papel que lhe fora dado. Não sabia que era tão complicado jogar no Bicho. Queria sair logo dali. Virou-se, outro susto. Dois PMs estavam praticamente colados a ela. Olhavam-na de cima abaixo. Sorriram de seu espanto. Um deles fez leve aceno com o quepe. Pensou que ia ser presa em flagrante contravenção. Maior ainda foi sua surpresa ao ver que eles apenas estavam, ‘na fila’, aguardando a vez. Pasma, pode ainda ver quando o apontador lhes entregou alguns reais, após o que saíram tranqüilamente, ao estilo ‘Cosme e Damião’, já como se atentos, fizessem a ronda policial. Afastou-se apressada e voltou ao trabalho.

Três horas em ponto! Chamou o ‘boy’ e mandou conferir o jogo. O rapaz retornou rápido e, pela expressão do rosto algo incrível havia acontecido. ‘– Ganhei? Quanto?’. ‘– Nada!’. ‘– Como nada? E essa sua cara de ‘deus me livre’?’. ‘– É que… veja a senhora mesma!’. Elizabeth pegou o papel e não acreditou: 0806. Havia tido mais sorte que inteligência. Era apenas a data do dia. Além disso, considerara só um ângulo do infame papel. Levantou a vista. O ‘boy’ a fitava estranho, num misto de pena e comicidade.

Desencantada, pegou a bolsa e avisou que o expediente acabara. Outro breve passeio pela calçada. Outro táxi. Mais sete reais e nova olhada, de cima abaixo, por outro taxista. Ela nem percebera. Dessa vez passou sob as duas escadas que evitara antes e desejou chutar o gato preto. Esperto, o felino não deu o ar de sua graça.

Entrou em casa e, na sala de estar, antes que pusesse a bolsa sobre a mesa de centro, viu a empregada, parada ao lado da janela, aos pés uma pequena mala. Eufórica, Severina vai logo avisando: ‘– Dona Elizabeth… a senhora nem acredita! Sabe… hoje de manhã minha irmã me ligou né. Falou que meu sobrinho nasceu hoje de madrugada né. A senhora nem acredita, anotei a data, aí corri na banca do Bicho e joguei três reais na milhar 0608 né. E sabe de uma coisa?… até esqueci o papel em que anotei aqui… na mesa da cozinha… acredita? Mas tenho cabeça boa… lá na banca me lembrei do número. Também era a própria dada de hoje! Acertei na cabeça. O dinheiro tá aqui ó!’ – Falou batendo no bolso da saia. E antes que Elizabeth pudesse dizer algo, Severina continuou: ‘– Eu tava só esperando a senhora chegar pra dizer que não vou mais trabalhar aqui não. Vou aproveitar esse dinheirinho e passar uns tempos com minha mãe lá em Jequié né. Desculpe,… eu não ter comprado o pão pela manhã. É que… na pressa de fazer o jogo, esqueci,… né. Ah! Também não fiz o almoço. É que acabou o gás e não tinha dinheiro, né. Olhe, eu já comprei a passagem e,… sabe aqueles cinco ou seis dias que a senhora me deve? Precisa pagar não, tá ‘fia’. Eu estou com sorte mesmo! Tchau. Fica com Deus viu!’. Benzeu-se, pegou a mala e saiu. Não olhou pra trás antes de bater a porta.
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